Cada livro é um saco cheio de coisas

Eu gastando tantas letras e a pensar que deve haver um limite no Infinito, visto que no infinito não há tempo e as coisas por lá todas terminadas, em sua forma definitiva. Jogassem-me lá e eu perguntava

— Olha, quantas letras eu escrevi?

No entanto, depois de voltar ao presente, se eu ainda vivo, com certeza mais angustiado, anotando letra por letra, uma cifra a crescer e eu com os dedos disciplinados, deixando passar apenas as palavras necessárias e indispensáveis, procurando resumir sentenças e nas sentenças capítulos inteiros, palavras curtas, sentidos longos, eu a encher as palavras como quem força a quantidade de coisas dentro de um saco pequeno quase a rebentar, cada saco um livro e eu todo cuidados a entregar aos leitores

— Perdoem-me, são apenas poesias

que a poesia deve ter sido inventada por alguém que de certeza andou pelo infinito e de lá para cá todo preocupado e mais inteligente que eu, mais habilidoso, a inventar a poesia para economizar as letras e ampliar os sentidos até não mais poder. Então cada livro um saco cheio de coisas imaginadas até à boca, de sentidos longos, e nós, coitados, numa dieta dolorosa de letras a enfiar tudo ali dentro, as pessoas, dias e mais dias, tentando decifrar o que escrevemos, sorrindo quando nos entendem, chorando quando nos entendem e indiferentes quando nada lhes faz sentido. Os que não entendem deixando o saco ficar por ali, no canto da sala quase a rebentar, até que uma criança o encontre e diga baixinho, com os olhos arregalados:

— Um saco cheio de mundos!

E o sentido das coisas, sabemos bem, no fim nunca se perde